Primeiro beijo

Pelos meus 13 anos passei algumas semanas das férias grandes de verão numa colónia de férias no norte do país.
Era já uma tradição desde bastante nova e nas vésperas da partida sentia sempre alguma ansiedade por rever as amigas do ano anterior e claro rever e conhecer os rapazes que este ano me despertavam mais curiosidade. Tinha-me tornado mulherzinha no inverno anterior, um marco na vida de uma jovem.

Olhando para trás acho que era até um ambiente bastante avançado, uma colónia mista em que durante algumas semanas de verão se vivia tudo tão intensamente que durava até ao ano seguinte através de correspondência por cartas e telefonemas para casa nas datas importantes. Intensidades típicas de primeiras experiências, descobertas e convívio com rapazes.
Apenas à noite é que éramos recolhidos para camaratas separadas, rapazes para um lado e raparigas para outro embora houvesse sempre aventuras e incursões atrevidas nas camaratas opostas enquanto os monitores estavam a planear as actividades do dia seguinte.

E a excitação que era! Deixarmos-nos ver com pijamas inocentes, sem soutiens por baixo ou deitar a cabeça na cama da nossa paixão secreta, aquele rapaz com que embirrávamos e lutávamos sem perceber o porquê de sermos atraídos para a esfera um do outro constantemente. Quem não suportávamos mas quem não podíamos deixar em paz!

Aos 13 anos foi diferente e inesquecível. Foi inocente e doce. Foi o meu primeiro beijo.
Apesar de ele ter a mesma idade que eu, tinha educação militar e era por isso muito respeitador e educado, mais adulto que os demais do seu grupo, ainda algo infantis na forma de lidar connosco.

Passámos grande parte das actividades a conviver um com o outro, brincando, picando, gozando e aproveitando todas as oportunidades para estar na presença um do outro. Era uma espécie de namoro sem expressão física.

A tradição ditava que na ultima noite antes do final das férias se fizesse uma festa estilo “discoteca” em que teríamos escuridão, luzes e um sistema de som a tocar musicas da moda e não só.
Quando começava a festa rapidamente se formaram grupos de raparigas dançando em roda para um lado da pista e rapazes para outro, meio estáticos e envergonhados. Ele dançava junto a nós. Mais tarde soube que havia uma tradição de chás dançantes no colégio dele e na minha cabeça tudo fez mais sentido.
A selecção musical destas festas, ano após ano, marcou-me até aos dias de hoje. Todos os anos havia alguma musica que marcava a colónia e cuja letra aprendíamos e cantávamos a cada oportunidade com vozes estridentes nos primeiros dias e embargadas no ultimo. Eram hinos à juventude e às férias.

Mas nessa noite tocou uma musica diferente e inesquecível Runaway do Del Shannon. Sendo uma musica dos anos 60 foi uma completa surpresa aos seus primeiros acordes mas talvez desde aí sempre me tenha ficado o eterno gosto por musica dos sitxys.

Assim que a musica começa ficamos todas meio sem saber como dançar tal musica e dispersamos para descansar até que ele vem ter comigo e pergunta-me ao ouvido:

Queres dançar comigo?

Eu tremo involuntariamente e digo que sim com dificuldade em fixar o seu olhar decidido.
Vamos até ao centro da pista deserta e tal como víamos na TV na altura eu coloco os meus braços à volta do pescoço dele e ele enlaça os seus braços na minha cintura.
A sua atitude destemida deixou-me completamente desarmada ao ponto de não o conseguir olhar nos olhos de tanta vergonha. Encostei a minha face na dele e deixámo-nos balançar.
O clímax chega quando ele me canta ao ouvido em voz fininha:

I wonder
I wah-wah-wah-wah-wonder
Why
Why, why, why, why, why she ran away

E o meu mundo parou nesse momento, era tudo o que uma miúda sonhava encontrar num rapaz! Ele era giro, maduro, sabia dançar e serenou-me ao ouvido uma canção. Estava aos gritos por dentro.
Nessa altura decido olha-lo nos olhos e enquanto relato este episódio até parece que sinto os seus lábios frescos a tocar nos meus. Beijámos-nos, beijos inocentes e tímidos só com lábios e a ponta da língua, mas suaves, muito suaves. Senti um calor por todo o meu corpo e uma vontade permanecer naquele clímax puro em que apenas existíamos nós os dois eternamente.

A musica foi extremamente rápida e após o seu final saímos para o jardim meio encavacados. Eram noites de verão adolescente onde não há frio e juntos pela mão e envergonhados começamos a caminhar entre canteiros sem trocar palavras nem olhares.

E para ser tudo ainda mais perfeito paramos junto de um arbusto com flores e ele apanha uma para mim. Tímido, rosado mas corajoso, oferece-me a flor. Eu sorrio e voltamos a beijar-nos até perdermos a noção do tempo.
Pouco a pouco as nossas línguas ficam mais aventureiras e as mãos dele deslizam para o meu rabo. Dá-me um aperto, timidamente claro. Lembro-me perfeitamente do friozinho na barriga. Aquele que ainda hoje em dia adoro sentir.

Rapidamente os amigos começaram a aproximar-se de nós uns rindo outros sorrindo curiosos. Talvez desejassem ser eles a viver o momento. Olhamos para eles satisfeitos e eu digo

Vamos voltar, vamos aproveitar!

Era a ultima noite e no fundo ambos sabíamos disso, mas ainda eramos jovens a sair da infância e o mais importante era estarmos juntos a marcar memórias. As nossas mentes estavam plenas com os beijos inocentes.
Apesar de nunca mais nos termos visto, o beijo, esse durou para sempre.

5 thoughts on “Primeiro beijo

  1. Adorei ler este post porque também estive vários anos numa dessas colônias de férias e sendo homem também foi lá que tive as minhas primeiras experiências… 🙂 será que nos conhecemos nessa altura… Para mim as musicas marcantes das colônias, cantadas vezes sem conta foram: More than words / Extreme e Easy Like Sunday Morning / Faith no More

    https://www.youtube.com/watch?v=UrIiLvg58SY

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